quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Relato de Aula

Corpo 

Na aula de Corpo, realizamos exercícios de automassagem e reconhecimento dos pés e das pernas. Trabalhamos as quatro partes de cada pé – dedos, metatarso, tarso e calcanhar – e depois seguimos as linhas de cada perna, buscando encontrar ossos e pontos de articulação. 
Em duplas, aprofundamos os exercícios da segunda aula, caminhando em círculos (sentidos horário e anti-horário) pela sala e, depois, desenhando um sinal de infinito da mesma forma, acompanhando os oito tempos da música nos dois momentos.
Realizamos também um jogo – espécie de pega-pega com passagem de palmas (era necessário receber a palma e só então repassá-la). A dificuldade é estar atento tanto ao “pegador” quanto à pessoa que está com a palma, pois raramente trata-se da mesma pessoa. Trata-se, então, de um jogo do coletivo e de cumplicidade (é preciso estar aberto ao olhar do outro, para que se possa passar a palma), além de um exercício de atenção.

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Análise ativa

Para o exercício de improvisação, recebemos as seguintes orientações:
a) circunstâncias originais: morte do pai ou da mãe; três filhos voltam do velório; não há ninguém em casa;
b) início da cena: os irmãos voltam para casa, conversando sobre a perda do pai/da mãe; começa a tocar a música preferida do pai/da mãe (o rádio toca sozinho);
c) primeiro conflito: um(a) dos irmãos acredita que este é um sinal enviado pelo pai/mãe, como se ele/ela estivesse tentando estabelecer um contato com os filhos; os outros irmãos saem com medo desse possível contato; o irmão ou a irmã que acredita no sinal convence os demais a participar de um “ritual” para conversar com o pai/a mãe; os três filhos participam do ritual;
d) segundo conflito/ circunstância principal: chega um vizinho ou uma vizinha, movido pela música, e pede para conversar com os irmãos; essa nova personagem revela que tinha um relacionamento com o pai/a mãe e conta que o casal escutava aquela música todos os dias.
e) possibilidades de reação: um(a) dos irmãos pode não aceitar ou não acreditar no vizinho/na vizinha, outro(a) pode acreditar ou aceitar bem a história; não era necessário que os irmãos entrassem em consenso no final, aceitando ou não o envolvimento do pai/da mãe com a vizinha/o vizinho.
Foi preciso delimitar, logo no início, o objetivo das personagens (em uma cena, há tanto o objetivo principal de cada personagem como alguns objetivos menores ou secundários; o grande objetivo do vizinho/da vizinha, por exemplo, é revelar seu envolvimento com o pai/a mãe que acabara de falecer) para que pudéssemos colocar um tom coerente com as circunstâncias e com a sucessão dos acontecimentos.
Para esta cena especificamente, foi preciso lidar também com a memória afetiva, que não é simplesmente uma lembrança da vida do ator, mas uma forma de retomar o processo dos sentimentos e usá-lo na circunstância, de modo a gerar ação dramática e, só então, outro sentimento (dor da morte ou da perda, por exemplo). A verdade, assim como a fisionomia dos atores e a sua sinceridade, decorrem da entrega do ator à personagem e à circunstância (antes de convencer àqueles que assistem, é preciso que o ator esteja convencido daquele momento).
Essa entrega é essencial porque os atores não estão dentro das circunstâncias propostas, o que permite a cada um alimentar de formas diversas seu campo de ideias. A improvisação é o jogo que se estabelece entre as circunstâncias dadas (comuns a todos) e os campos de ideias (individuais).


O processo de conhecimento da cena, então, se dá do desconhecido ao resultado (conhecido), e a Análise Ativa vem dessa construção processual, sempre a partir do texto.

A partir disso, realizamos mais algumas cenas:
1. Cena I – A das irmãs:
a) Circunstâncias dadas: duas irmãs; a mais velha tem ciúmes das próprias coisas; a mais nova vê na irmã um ídolo, um exemplo;
b) Início da cena: a irmã mais nova usa a maquiagem da mais velha e, mexendo em suas coisas, encontra o diário da irmã; lá está escrito que a irmã mais velha tem um caso com o namorado da caçula; chega a irmã mais velha;
c) Conflito: a irmã mais velha nega o próprio diário e a irmã mais nova se sente duplamente traída; chega o namorado, durante a discussão, e a irmã mais nova faz com que ele saia do quarto para continuar a conversa;
d) Circunstância final: a irmã mais velha diz que é culpada, admite a traição e, por não ter outras amigas além da própria irmã, pede perdão (a cena acaba sem que a irmã mais nova decida se perdoa ou não).

2. Cena II – A do funcionário promovido:
a) Circunstâncias dadas: funcionário é promovido e está comemorando em um bar;
b) Início da cena: chega a nova chefe boi mesmo bar; o funcionário não a conhece, mas ela sabe que é seu subordinado;
c) Conflito: o funcionário confunde a chefe com uma prostituta;
d) Circunstância final: a chefe revela ao funcionário quem ela é realmente.

3. Cena III – A da filha grávida:
a) Circunstâncias dadas: filha quer contar à mãe que está grávida durante o jantar;
b) Início da cena: a filha recebe a mãe para jantar; elas conversam; a filha conta de sua gravidez para a mãe, que não aceita o fato (pensando na carreira ou nos estudos da filha);
c) Conflito: a mãe sugere que a menina faça um aborto e ela não aceita; mãe e filha discutem;
d) Circunstância final: a mãe leva a filha ao hospital para depois decidir se deixará a menina ter o bebê.


Análise Ativa

Na segunda aula de Análise Ativa, retomamos o trabalho com o enredo de Visita da Velha Senhora. Agora, pudemos retomar os elementos já conhecidos e conhecemos e aprofundamos outros aspectos.
Como circunstâncias dadas (ou seja, aquelas que norteiam a história e não necessariamente são ditas ou explicadas em cena, apenas orientando a construção desta), tínhamos a situação da cidade – completamente pobre, sem emprego ou quaisquer condições de vida para seus moradores – e o fato de o prefeito Luiz auxiliar na alimentação das pessoas servindo sopa.
Os acontecimentos originais (aqueles que não aparecem na cena, mas são retomados como se a história já estivesse acontecendo antes, ou seja, o “recorte” da cena se dá com o enredo se desenvolvendo) foram apenas retomados: vinte e poucos anos antes, Clara foi humilhada e expulsa da cidade.
O início da cena (que não deve ser confundido com os acontecimentos originais, pois estes não precisam ser o mesmo instante da história) se dá com o retorno da personagem à cidade: neste momento, Clara surge como uma mulher muito rica e poderosa. A cidade prepara, então, uma espécie de recepção para ela, pois ninguém acha que ela ainda pode guardar mágoa ou rancor pelo passado. Clara promete revitalizar a cidade e devolver os empregos para a população, com a condição de que alguém mate o prefeito e lhe entregue sua cabeça. Diferentemente da improvisação anterior, sabemos aqui que algo aconteceu entre Clara e Luiz e, mesmo sem saber com exatidão do que se trata, podemos mostrar certo “estranhamento” entre eles, deixando uma indicação para quem assiste à cena.
O acontecimento principal (isto é, aquele que marca o final da cena, pois tudo se encaminha para este momento) pode se dar novamente de duas formas: ou a cidade opta por matar o prefeito e a situação coletiva melhora, ou a população apoia Luiz e novamente expulsa Clara. Como desenrolar da cena deve levar a uma dessas possibilidades, a sucessão de acontecimentos precisa ser pensada tendo em vista este acontecimento principal: cada acontecimento caminha para isso, não sendo possível que se tome outro “rumo” durante a encenação.
Temos, portanto, os elementos essenciais da cena: 
1. Acontecimento original (ou inicial); 
2. Sucessão de acontecimentos; 
3. Acontecimento principal (ou final).
Durante a improvisação, trabalhamos também com a relação do eu com a circunstância: é preciso seguir o eu na circunstância, para que nada se perca ou deixe de fazer sentido e se fazer verdadeiro durante a cena. É preciso também atentar para as circunstâncias da cena e da personagem (novamente a importância de se colocar o teatro como uma prática coletiva e individual ao mesmo tempo). Além disso, sempre se deve buscar a verdade em cena.
Aqui lidamos com o teatro realista, onde não há espaço para o lúdico; deve-se, portanto, trabalhar com signos transparentes. Dessa forma, um copo é um copo, uma escova de cabelos é uma escova de cabelos – não se pode criar um signo a partir de outro signo. Durante a improvisação de pequenas cenas, foi preciso encontrar elementos que pudessem servir como esse tipo de signo, ao invés de utilizarmos quaisquer objetos para diversos fins. É claro que há espaço no teatro para que se lide com o lúdico, onde um bloco de madeira possa se transformar em banco, cavalo ou um monstro; aqui, porém, precisamos lidar com o máximo de realismo, buscando em cena a maior proximidade possível com a vida real, cotidiana, concreta.

Sugestões de leitura:
- O corpo tem suas razões, de Therese Bertherat
- O papel do corpo no corpo do ator, de Sônia Machado de Azevedo

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Percepções de uma aula de teatro


Fiquei impressionado como os termos, sendo claros, trabalharam a minha imaginação e me ajudaram a realizar os exercícios corporais com mais precisão.
· A cabeça como uma gota pendurada;
· O desenrolar do corpo;
· As distâncias dos pés em paralelo é a distância da mão espalmada;
· A kinesfera como espaço maior ocupado pelo corpo, enquanto em X tridimensional aberto em todas as direções;
· A respiração sendo percebida como luz colorida que se espalha para dentro do corpo com a inspiração e que sai com a expiração;
· O corpo sendo percebido como cinco linhas: duas inferiores (pernas), duas superiores (braços), uma central (espinha dorsal) e um ponto maior superior (a cabeça), que quando se olha para o teto, se vê um ponto no meio desse ponto maior, que é a ponta do nariz;

Depois dessas práticas corporais, baseadas nessas informações dadas, o corpo nunca mais será o mesmo na realização de quaisquer exercícios.
Ainda, destaco a necessidade de se reconhecer enquanto aluno, enquanto aprendiz. Depois do exercício de interpretação do “Eu nas circunstâncias”, diante das correções do professor, não há espaço para argumento. Os alunos não têm do que se defender, todos estão aprendendo, sob a orientação do Edu. E o Edu, certamente, aprende conosco. Aprende quem somos, aprende a como ensinar para esses novos rostos e mentes que estão diante de si.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Relato da Aula

Dia 5 de fevereiro de 2011: voltam as aulas no Teatro Escola Macunaíma. Todos estavam ansiosos pela chegada dos amigos, os reencontros, a descoberta de quem seriam os professores no novo módulo, em qual teatro ficariam e outras preocupações que sempre passam na cabeça de qualquer pessoa em um primeiro dia de aula.
Pouco a pouco os amigos chegavam, os olhares se encontravam e, quase automaticamente, partíamos para um abraço de acolhida como nunca fora dado antes. Logo, notamos algo inevitável: várias desistências, os tripulantes conhecidos deixaram o barco e alguns estranhos-estrangeiros subiram à bordo.
Ao olhar a lista, percebemos que teríamos aula de Análise Ativa e Expressão Corporal com o Edu de Paula e de Teoria da Interpretação com o Zé Aires. Poucos conheciam tais professores e a ansiedade era imensa!
Quando conduzidos às nossas novas salas, o silêncio do "primeiro dia de aula" era inevitável. Curiosidade, medo, felicidade... todas as emoções se encontravam e era possível vê-las no rosto de cada um.
Começamos com a aula de Análise Ativa. Todos nos apresentamos, fizemos perguntas para conhecermos melhor uns aos outros e novos exercícios apareceram, propondo-nos mudanças no andar, no olhar e na comunhão dos atores.
A primeira aula girou em cima da adaptação da circunstância. Aceitar o que é proposto em cena e colocar o "eu" na circunstância. "Como eu agiria se eu fizesse aquela personagem?" Esta foi uma das perguntas mais presentes no interior de cada um. Para ajudarmos na adaptação da circunstância, podemos usar o "Mágico Se" como uma espécie de metodologia para encarnar uma personagem - "Se eu fosse o José, como eu agiria?"
Fizemos várias improvisações partindo disso. Entre elas, iniciamos o trabalho com o enredo de "Visita da Velha Senhora". Em uma cidade falida e pobre, os habitantes não têm emprego e vivem da sopa oferecida pelo prefeito Luiz. Clara, humilhada e expulsa pelos moradores do local anos antes, volta à cidade como uma mulher muito rica e dona de várias indústrias. Ela promete revitalizar a cidade, devolvendo aos moradores seus empregos e sua dignidade. Porém, para que isso aconteça, Clara pede a cabeça do prefeito em troca de sua ajuda. Os habitantes podem, então, escolher entre matar Luiz e entregar sua cabeça à mulher ou novamente expulsar Clara da cidade.
Depois de apresentadas as cenas e de um intervalo rápido de vinte minutos, voltamos para o teatro e tivemos uma aula de Expressão Corporal que dispensa qualquer tipo de comentário. Todos saíram absolutamente extasiados pela perfeição da aula e o relaxamento que ela possibilitou para o corpo de cada um.
Finalmente, fomos para a aula de Teoria da Interpretação conhecer o famoso Zé Aires. Conversamos e trocamos ideias sobre o teatro no ponto de vista de cada um. Concluímos que devemos sempre buscar a verdade cênica e, ao entrar em cena, saber qual é o seu objetivo e quais os obstáculos que você precisará enfrentar para conseguir alcançá-lo. O ator é o que ele cria! Sendo assim, doem-se em cena e deixem sempre o criativo e pleno fluírem, buscando a emoção verdadeira.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Avisos iniciais

Retomando os avisos da primeira aula (05 de fevereiro):

- No blog do Edu, podemos encontrar textos teóricos e teatrais, além de outras informações e referências importantes para o curso.

- São permitidas apenas 4 faltas no semestre. É essencial, porém, que se evite ao máximo faltar, visto que isso pode prejudicar o processo coletivo.

- A aula começa pontualmente às 9 horas (com tolerância até às 9h05): assim como a questão das faltas, os atrasos também podem interferir no caminhar de todxs.

- Precisamos assistir a quatro peças no semestre. As peças serão discutidas coletivamente no último sábado de cada mês - por isso, é interessante se pudermos assisti-las em grupos. É necessário levar o ingresso de cada peça.
Os locais indicados são: Sesc/Sesi, Praça Roosevelt e Centro Cultural. A quarta peça é de escolha livre.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sobre o ato de representar


Que a discrição te sirva de guia; acomoda o gesto à palavra e a palavra ao gesto, tendo sempre em mira não ultrapassar a modéstia da natureza, porque o exagero é contrário aos propósitos da representação, cuja finalidade sempre foi, e continuará sendo, como que apresentar o espelho à natureza, mostrar à virtude suas próprias feições, à ignomínia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impressão de sua forma. O exagero ou o descuido, no ato de representar, podem provocar riso aos ignorantes, mas causam enfado às pessoas judiciosas, cuja censura deve pesar mas em tua apreciação do que os aplausos de quantos enchem o teatro.

Hamlet
Ato III - Cena II: Hamlet

Fonte: FARACO, S. Shakespeare de A a Z: livro das citações. Porto Alegre: L&PM, 1999. p.21. (tradução de Carlos Alberto Nunes)