Na segunda aula de Análise Ativa, retomamos o trabalho com o enredo de Visita da Velha Senhora. Agora, pudemos retomar os elementos já conhecidos e conhecemos e aprofundamos outros aspectos.
Como circunstâncias dadas (ou seja, aquelas que norteiam a história e não necessariamente são ditas ou explicadas em cena, apenas orientando a construção desta), tínhamos a situação da cidade – completamente pobre, sem emprego ou quaisquer condições de vida para seus moradores – e o fato de o prefeito Luiz auxiliar na alimentação das pessoas servindo sopa.
Os acontecimentos originais (aqueles que não aparecem na cena, mas são retomados como se a história já estivesse acontecendo antes, ou seja, o “recorte” da cena se dá com o enredo se desenvolvendo) foram apenas retomados: vinte e poucos anos antes, Clara foi humilhada e expulsa da cidade.
O início da cena (que não deve ser confundido com os acontecimentos originais, pois estes não precisam ser o mesmo instante da história) se dá com o retorno da personagem à cidade: neste momento, Clara surge como uma mulher muito rica e poderosa. A cidade prepara, então, uma espécie de recepção para ela, pois ninguém acha que ela ainda pode guardar mágoa ou rancor pelo passado. Clara promete revitalizar a cidade e devolver os empregos para a população, com a condição de que alguém mate o prefeito e lhe entregue sua cabeça. Diferentemente da improvisação anterior, sabemos aqui que algo aconteceu entre Clara e Luiz e, mesmo sem saber com exatidão do que se trata, podemos mostrar certo “estranhamento” entre eles, deixando uma indicação para quem assiste à cena.
O acontecimento principal (isto é, aquele que marca o final da cena, pois tudo se encaminha para este momento) pode se dar novamente de duas formas: ou a cidade opta por matar o prefeito e a situação coletiva melhora, ou a população apoia Luiz e novamente expulsa Clara. Como desenrolar da cena deve levar a uma dessas possibilidades, a sucessão de acontecimentos precisa ser pensada tendo em vista este acontecimento principal: cada acontecimento caminha para isso, não sendo possível que se tome outro “rumo” durante a encenação.
Temos, portanto, os elementos essenciais da cena:
1. Acontecimento original (ou inicial);
2. Sucessão de acontecimentos;
3. Acontecimento principal (ou final).
Durante a improvisação, trabalhamos também com a relação do eu com a circunstância: é preciso seguir o eu na circunstância, para que nada se perca ou deixe de fazer sentido e se fazer verdadeiro durante a cena. É preciso também atentar para as circunstâncias da cena e da personagem (novamente a importância de se colocar o teatro como uma prática coletiva e individual ao mesmo tempo). Além disso, sempre se deve buscar a verdade em cena.
Aqui lidamos com o teatro realista, onde não há espaço para o lúdico; deve-se, portanto, trabalhar com signos transparentes. Dessa forma, um copo é um copo, uma escova de cabelos é uma escova de cabelos – não se pode criar um signo a partir de outro signo. Durante a improvisação de pequenas cenas, foi preciso encontrar elementos que pudessem servir como esse tipo de signo, ao invés de utilizarmos quaisquer objetos para diversos fins. É claro que há espaço no teatro para que se lide com o lúdico, onde um bloco de madeira possa se transformar em banco, cavalo ou um monstro; aqui, porém, precisamos lidar com o máximo de realismo, buscando em cena a maior proximidade possível com a vida real, cotidiana, concreta.
Sugestões de leitura:
- O corpo tem suas razões, de Therese Bertherat
- O papel do corpo no corpo do ator, de Sônia Machado de Azevedo
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